Mostrando postagens com marcador Fichamento. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fichamento. Mostrar todas as postagens

domingo, 15 de junho de 2008

Polanyi (Fichamento)

POLANYI, Karl - “O nascimento do credo liberal” in “A grande Transformação-As origens da nossa época” Rio de Janeiro: Campus, 1980

“O liberalismo econômico foi o princípio organizador de uma sociedade engajada na criação de um sistema de mercado. Nascido como mera propensão em favor de métodos não-burocráticos, ele evoluiu para uma fé verdadeira na salvação secular do homem através de um mercado auto-regulável” (Pg.141)
“Foi somente nos anos 1820 que ele passou a representar os três dogmas clássicos: o trabalho deveria encontrar seu preço no mercado, a criação do dinheiro deveria sujeitar-se a um mecanismo automático, os bens deveriam ser livres para fluir de país a país, sem empecilhos ou privilégios. Em resumo, um mercado de trabalho, padrão-ouro e livre comércio” (Idem)
“Não foi senão nos anos 1830 que o liberalismo econômico explodiu como uma cruzada apaixonante e o laissez-faire se tornou um credo militante. A classe manufatureira pressionava pela emenda da Poor Law, uma vez que esta impedia a criação de uma classe trabalhadora industrial que só assim poderia conseguir uma renda própria. Tornava-se aparente, agora, a magnitude do empreendimento que significava a criação de um mercado livre, bem como a extensão da miséria a ser afligida às vítimas do progresso”(Pg. 142)
“As fontes utópicas do laissez-faire não podem ser inteiramente compreendidas enquanto examinadas separadamente. Os três pilares- mercado de trabalho competitivo, padrão-ouro automático e comércio internacional livre- formavam um todo. Eram inúteis, ou talvez pior, os sacrifícios exigidos para atingir qualquer um deles a menos que os dois outros fossem igualmente garantidos. Era tudo ou nada.” (Pg.144)
“Não havia nada natural em relação ao laissez-faire; os mercados livres jamais poderiam funcionar deixando apenas que as coisas seguissem seu caminho. Assim como as manufaturas de algodão – a indústria mais importante do livre comércio - foram criadas com a ajuda de tarifas protetoras, de exportações subvencionadas e de subsídios indiretos dos salários, o próprio laissez-faire foi imposto pelo estado. Os anos trinta e quarenta presenciaram não apenas uma explosão legislativa que repelia as regulamentações restritivas, mas também um aumento enorme das funções administrativas do estado, dotado agora de uma burocracia central capaz de executar as tarefas estabelecidas pelos adeptos do liberalismo” (Idem)
“O caminho para o mercado livre estava aberto e se mantinha aberto através do incremento de um intervencionismo contínuo, controlado e organizado de forma centralizada. (...) Todos esses baluartes da interferência governamental, no entanto, foram criados com a finalidade de organizar uma simples liberdade – a da terra, do trabalho e da administração municipal. Assim como, contrariando as expectativas, a invenção da maquinaria que economizaria trabalho não diminuíra mas, na verdade, aumentara a utilização do trabalho humano, a introdução dos mercados livres, longe de abolir a necessidade de controle, regulamentação e intervenção, incrementou enormemente o seu alcance” (Pgs 145-146)
“Autores liberais, como Spencer e Summer, Mises e Lippmann, nos oferecem um relato desse duplo movimento bastante similar ao nosso, mas lhe dão uma interpretação inteiramente diferente. Enquanto, em nossa opinião, o conceito de um mercado auto-regulável era utópico e seu progresso foi obstruído pela autoproteção realista da sociedade, na perspectiva deles todo o protecionismo foi um erro resultante da impaciência, ambição e estreiteza de visão, e sem elas o mercado teria resolvido suas dificuldades.” (Pg.146)
“Este é o mito da conspiração antiliberal que de uma forma ou outra, é comum à todas as interpretações liberais dos acontecimentos dos anos 1870 e 1880. A forma mais comum é atribuir ao nascimento do nacionalismo e do socialismo o crédito de agente principal nessa mudança de cenário; as associações e monopólios de fabricantes, os interesses agrários e os sinicatos profissionais são os vilões da peça.”(Pg.149)
“Embora seja verdade que os anos 1870 e 1880 viram o fim do liberalismo ortodoxo e que todos os problemas cruciais do presente têm sua raiz nesse período, seria incorreto dizer que a mudança para um protecionismo nacional fosse devida a qualquer outra causa além da manifestação das fraquezas e perigo inerentes a um sistema de mercado anti-regulável.”(Pg. 150)
“Para uma mente imparcial, essas medidas comprovam a natureza puramente prática, pragmática do contramovimento ‘coletivista’. A maioria daqueles que punham em prática essas medidas eram partidários convictos do laissez-faire e certamente ao achavam que se consentimento para a organização de um corpo de bombeiros em Londres implicasse num protesto contra os princípios do liberalismo econômico. Pelo contrário, os patrocinadores desses atos legislativos eram, em regra, oponentes intransigentes do socialismo ou de qualquer outra forma de coletivismo” (Idem)
“Teoricamente o laissez-faire ou a liberdade de contrato implicava na liberdade dos trabalhadores de recusar-se a trabalhar, individual ou coletivamente, se assim decidissem; implicava também na liberdade dos homens de negócios de ajustar os preços de venda independentemente da vontade dos consumidores. Na prática, porém, tal liberdade entrava em conflito com a instituição de um mercado auto-regulável e, em tal conflito concedi-se precedência, invariavelmente, ao mercado auto-regulável” (Pg.152)
“Finalmente, o comportamento dos próprios liberais provou que a manutenção da liberdade do comércio – em nossos termos, de um mercado auto-regulável - longe de excluir a intervenção, na verdade exigia tal ação, e que os próprios liberais apelaram sistematicamente para a atuação compulsória do estado, como no caso da lei dos sindicatos profissionais e das leis antitrustes.” (Pg. 154)

terça-feira, 27 de maio de 2008

DE DECCA, Eric (Fichamento)

DE DECCA, Edgar. “O colonialismo como glória do império” In.: REIS FILHO, Daniel Aarão et alli. O século XX: o tempo das certezas. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2000. volume I, pp. 151 a 181

Expansão
De Decca define a necessidade de expansão, com ênfase na necessidade de mercados e matérias-primas, nos seguintes termos:
“A principal característica desse processo desenfreado por ampliação de espaços era a de que a expansão dos Estados europeus tinha sido motivada por uma necessidade irrefreável de ampliação de mercados das economias competitivas do capitalismo industrial.(...) Se as fronteiras nacionais tinham sido até então a base e sustentação do edifício político do Estado, as forças avassaladoras do capitalismo industrial pressionavam para que essas fronteiras fossem rompidas e expandidas a uma dimensão sem precedentes” (pg. 155)
“Tudo o que pudesse representar abertura de novos mercados e domínio de fontes estratégicas de matérias-primas (ferro, cobre, petróleo, manganês, jazidas de diamantes etc.) passou a ser prioritário para as burguesias desses estados europeus expansionistas.” (Idem)

“Imperialismo” enquanto conceito
O autor ressalta que “Imperialismo” não é, como seria fácil imaginar a “formação de um império” já que para formar um império “seria necessário que a nação promotora desse império estendesse suas leis e suas instituições aos territórios anexados e tornasse os povos dessas regiões tão iguais em direitos quanto aqueles que vivem no território da nação mãe. Entretanto aconteceu o contrário dessa situação” (pg. 157) Ele define o imperialismo como “uma política deliberada dos estados europeus de anexação de povos e territórios com vistas à expansão dos mercados capitalistas.” (Idem) Uma política que só pôde se consolidar graças ao domínio militar e a um aparato administrativo específico.

O Imperialismo e o homem comum (europeu)
A era industrial e o Imperialismo definiram grandes mudanças não apenas nos territórios conquistados, mas também no interior dos estados conquistadores. A vida comum sofreu grandes mudanças em termos sociais, comportamentais, econômicos, mudanças que influenciaram a cultura, o consumo, os valores etc. Algumas das mais fundamentais foram o crescimento e modernização das cidades e o advento do consumo de massa. Um outro dado importante como a tecnologia não apenas incrementou a produção das fábricas, mas também a distribuição dos produtos por meio do transporte. O transporte, aliás, junto com as comunicações, também facilitaria o deslocamento do próprio homem para além de seus lugares de origem.

Literatura
O autor usa a literatura como um acervo “rico em sugestões” acerca da mente do homem do período imperialista. Enquanto alguns autores escrevem obras legitimadoras do domínio europeu no mundo, outros se posicionam criticamente, É sobre esses últimos que o autor discorre mais longamente. Em especial De Decca considera “O coração das trevas” de Joseph Conrad, como “romance síntese” da época. Em suas palavras:
“Nesse romance, a grande cidade européia é metaforizada nas selvas africanas, onde o homem civilizado, livre de todas as convenções, imbuído dos ideais de progresso, expande ilimitadamente o seu poder, levando tudo o que o rodeia à destruição e à barbárie” (pg. 167)

O socialismo
O socialismo, no espírito geral de expansão, também se pretendia universal, ainda que suas zonas de atuação na prática fossem a Europa e, em menor proporção, os EUA. Ainda que várias tendências formassem o movimento socialista a mais influente era a corrente marxista. De Decca dá ênfase espacial ao que ele define como “disputa” entre os “partidários da revolução e os do reformismo”. Ele acentua o fato de que, com a difusão das idéias socialistas, propagou-se uma idéia de progresso, de que a revolução socialista seria o próximo passo lógico na evolução humana. Bernstein coloca essa visão em disputa, ao afirmar que “ não era nada viável uma revolução nos países industrializados, acreditava que o capitalismo teria muito fôlego para agüentar crises periódicas e que o movimento socialista deveria se preparar para lutar por reformas políticas e sociais, através de alianças com outros partidos políticos” (pg. 172) De Decca afirma ainda, sobre a expansão do socialismo e sua relação com o imperialismo: “(...) o imperialismo teve que se debater com uma poderosa força política de contestação que ele próprio ajudou a propagar(...)” (pg 174)

A Belle -Époque
De Decca afirma:
“Num período onde as ambições foram imensas e os sonhos também grandiosos, do domínio imperialista ao paraíso socialista, não seria absurdo dizer que todos os outros campos da atividade humana foram também atingidos por essa espansão ilimitaa dos desejos(...)Havia a nítida sensação de que tudo estava em expansão, e as certezas fixas e mecânicas, que haviam garantido o pensamento europeu, principalmente o filosófico e o científico, durante os últimos séculos estavam em vias de desaparecer” (pg. 176)
A ciência e os novos conhecimentos, as mudanças que os acompanham, sua aceitação como emblema do progresso ou sua rejeição são fundamentais para compreender a sociedade da Belle-Époque. O progresso científico gera tanto os meios de transporte e a difusão da cultura, como para a criação da Eugenia, do racismo científico, a fotografia revoluciona a idéia de informação, as mudanças se precipitam umas sobre as outras. “Não seria absurdo afirmar que a valsa, música símbolo de Viena, tinha se transformado na composição de Ravel em uma ‘desvairada dança macabra’ (...)”

segunda-feira, 14 de abril de 2008

HOBSBWAM, Eric (Fichamento)-Capítulo II

HOBSBAWM, Eric. Uma economia mudando de marcha in “A era dos impérios”. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988.

Nesse capítulo o autor explora as transformações ocorridas na economia mundial, européia em particular, durante o período que vais da crise dos anos de 1870 e a Primeira Guerra Mundial.

Parte 1
Protecionismo e Concentração Econômica

Entre as características do período pós-1870 encontra-se o aumento do protecionismo. Com o aumento vertiginoso da industrialização, produção e comércio, verifica-se uma queda nos preços de diversos produtos, tanto industriais quanto agrícolas. A queda dos preços leva não apenas a um aumento do poder de compra do homem comum como a uma queda nos lucros. No caso do campo o efeito da deflação foi especialmente sentido no campo, levando à formação de cooperativas e ao aumento da emigração. Segundo Hobsbawn, “a grande depressão fechou a longa era do liberalismo econômico”. A fim de evitar a queda dos preços, tomaram-se medidas protecionistas na maior parte dos países industrializados. Verifica-se assim um maior controle do mercado, além de tentativas de eliminar a concorrência estrangeira.
Administração científica/ Taylorismo
A Depressão também gerou a chamada “administração científica” proposta por F.W. Taylor. Esse método de organização tinha por objetivo o incremento dos lucros. Seus principais métodos:
· Isolar cada operário de seu grupo de trabalho, transferindo o controle do processo de trabalho a agentes administrativos.
· Divisão sistemática de cada processo produtivo em unidades cronometradas
· Sistema de pagamento por produção a fim de incentivar o operário a produzir mais.
Imperialismo
Além do protecionismo e mudanças na administração das fábricas, o imperialismo também foi uma saída possível para a queda dos lucros. O autor aponta a coincidência entre a depressão e a fase mais dinâmica da divisão colonial. Segundo Hobsbawn “(...) a pressão do capital à procura de investimentos mais lucrativos, bem como a da produção à procura de mercados contribuíram para as políticas expansionistas-inclusive a conquista colonial.”
Parte 2
Depressão e “boom” econômico

Teoria de Schumpeter – “associa a etapa ‘descendente’ ao esgotamento do lucro potencial de uma série de ‘inovações econômicas e o novo movimento ascendente a um novo conjunto de inovações percebidas basicamente -mas não só - como tecnológicas” (pg. 75)
Teoria de Kondratiev – Relação entre o setor indutrial e a produção agrícola mundial. O primeiro se expande através de uma contínua revolução da produção; a segunda cresce devido à abertura de novas zonas geográficas de produção. > Desaceleração da produção agrícola > “termos de troca” se tornam mais favoráveis à agricultura e menos à indústria, o que explicaria a queda de preços em 1873-1896 e a alta daí até 1914.
“O que tornou a economia mundial tão dinâmica?”
“(...)a chave do problema está claramente na faixa central de países industrializados e em vias de industrialização(...)pois eles agiam como o motor do crescimento global, a um tempo como produtores e como mercados” (pg. 77)
Parte 3
Síntese da economia mundial na Era do Império
· Economia de base geográfica muito mais ampla que anteriormente. Maior industrialização e crescimento do mercado.
· Pluralismo crescente da economia mundial.
· Revolução tecnológica. Atualização da primeira revolução industrial; aperfeiçoamento da tecnologia a vapor. Eletricidade, química, motores de combustãoe outras indústrias revolucionárias se tornam mais importantes.
· Transformação na empresa capitalista: concentração de capital, aumento da escala de produção, retraimento do mercado de livre concorrência. Tentativas sistemáticas de racionalizar a produção e a administração das empresas por meio de “métodos científicos”
· Transformação do mercado: aumento da população, da urbanização e da renda real. Formação de um mercado de massa, não mais restrito às necessidades básicas como roupas e comida, que passa a dominar as indústrias de bens de consumo. Desenvolvimento de novas tecnologias e o imperialismo concorrem para a produção de novos produtos e serviços. Criação dos meios de comunicação em massa.
· Crescimento do setor terciário.
· Convergência de política e economia: aumenta o papel do governo e do setor público. Democratização da política leva à ação política em defesa dos interesses de certos grupos de eleitores. Fusão da rivalidade política entre Estados com a concorrência econômica entre grupos nacionais de empresários.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

HOBSBWAM, Eric (Fichamento)

HOBSBAWM, Eric. A Revolução Centenária in “A era dos impérios”. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988.

O autor parte da idéia da comemoração de centenários (inventada no século XIX) para colocar a questão: “Qual seria o resultado de uma comparação entre o mundo dos anos 1880 e o dos anos 1780”.
O “mundo” dos anos 1880 era “genuinamente global”:
· Mapeamento e exploração mais completos do mundo.
· Maior velocidade nos transportes e na transmissão de informações
· Aumento demográfico
· Desenvolvimento da tecnologia
· Maior produção de riqueza

“Primeiro Mundo” e “Segundo Mundo”
“(...) ao abordar 1880, estamos menos diante de um mundo único do que de dois setores que combinados formam um sistema global: o desenvolvido e o defasado, o dominante e o dependente, o rico e o pobre. Mesmo esta descrição é enganosa. Enquanto o (menor) Primeiro Mundo, apesar de suas consideráveis disparidades internas era unido pela história e por ser o portador conjunto do desenvolvimento capitalista, o Segundo Mundo (muito maior) não era unido senão por suas relações com o primeiro, quer dizer, por sua dependência potencial ou real.”(pg. 33)
"A tecnologia era uma das principais causas dessa defasagem, acentuando-se não só econômica como politicamente. Um século após a Revolução Francesa, tornava-se cada vez mais evidente que os países mais pobres e atrasados podiam ser facilmente vencidos e (salvo se fossem muito grandes) conquistados, devido à inferioridade técnica de seus armamentos” (pg. 32)
No entanto, o autor enfatiza que mesmo dentro do chamado “Primeiro mundo” as disparidades são importantes:
“Assim, grandes extensões da ‘Europa’ estavam, na melhor das hipóteses, na periferia do centro do desenvolvimento econômico capitalista e da sociedade burguesa. Em alguns deles, a maioria dos habitantes vivia visivelmente num século diferente do de seus contemporâneos e governantes(...)” (pg. 35)
Segundo o autor:
“Existia claramente um modelo geral referencial das instituições e estrutura adequadas a um país ‘avançado’(...)Nesse sentido, o modelo da nação-Estado liberal constitucional, não estava confinado ao mundo ‘desenvolvido’. De fato, o maior contingente de Estados operando teoricamente segundo esse modelo(...)seria encontrado na América Latina.” (pgs. 41-2)
Assim o modelo ideal de “país moderno”, que incluía democracia, liberalismo e industrialização só era de fato atendido por alguns poucos países ‘desenvolvidos’ como Inglaterra, França, Alemanha e EUA, e excluía mesmo partes da Europa consideradas parte do “Primeiro mundo” apenas por uma questão de história e cultura comuns. Do mesmo modo a expressão “Segundo Mundo” servia não apenas para designar aqueles povos que não se encaixavam no modelo industrial liberalista, mas também os que não partilhavam da experiência cultural e histórica européia.

Tecnologia e progresso
“O que definia o século XIX era a mudança” afirma o autor. A marca da mudança estava no avanço da tecnologia e suas conseqüências, principalmente econômicas. A revolução industrial permite o incremento de maquinaria a vapor, construção de ferrovias, invenções tais como o telégrafo, turbinas, motores de combustão interna, eletricidade, automóveis etc....
Já fora dos ‘países desenvolvidos’, “a novidade, especialmente quando trazida de fora por gente da cidade e estrangeiros, era algo que perturbava velhos hábitos arraigados, mais do que algo portador de progresso” (pg. 52)
“Assim, sendo, o ‘progresso’ fora dos países avançados não era nem uma suposição plauisível, mas sobretudo um perigo e um desafio estrangeiros. Os que se beneficiavam com ele e o acolhiam favoravelmente eram as reduzidas minorias de governantes e citadinos(...)”
“O mundo estava, portanto, dividido numa parte menor, onde o ‘progresso’ nascera, e outra, muito maior, onde chegara como conquistador estrangeiro, ajudado por uma minoria de colaboradores locais” (pg.53)
A idealização do progresso e da tecnologia, gerou uma avidez crescente pelo avanço técnico e científico. Os êxitos das burguesias ocidentais e a idealização da técnica e da ciência, aliada à cientifização do discurso social levaram à constituição do darwinismo social, isto é uma racismo científico e uma naturalização das desigualdades sociais.
“A humanidade foi dividida segundo a ‘raça’, idéia que penetrou na ideologia do período quase tão profundamente como a de ‘progresso’(...) Até nos próprios países ‘desenvolvidos’, a humanidade estava cada vez mais dividida na cepa enérgica e talentosa da classe média e nas massas indolentes, condenadas à inferioridade por suas deficiências genéticas. Apelava-se à biologia para explicar a desigualdade, em particular aqueles que se sentiam destinados à superioridade.” (pg.54)
O autor termina o texto com o questionamento: aonde levava o progresso? E conclui:
“Por volta dos anos de 1870, o progresso do mundo burguês chegara a um ponto em que vozes mais céticas, ou mesmo mais pessimistas, começaram a ser ouvidas. E elas eram reforçadas pela situação em que o mundo se encontrava nos anos 1870, e que poucos haviam previsto. (...)Após uma geração de expansão sem precedentes, a economia mundial entrava em crise.” (pg. 56)

domingo, 30 de março de 2008

FALCON, Francisco (Fichamento)

FALCON, Francisco. “O capitalismo unifica o mundo” In.: REIS FILHO, Daniel Aarão (org.) O século XX: o tempo das certezas. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2000. p. 11 a 76.

Introdução: Conceitos, espaços e tempos.
a) Conceitos
“Mercado”- O autor usa a definição moderna que toma “mercado” como “centro das trocas” onde a “troca real” (comércio) se dá por meio da moeda.
Sobre a existência do Capitalismo e do “Mercado internacional”: o autor admite duas teorias:
1ª- mercado internacional como “um processo que envolve os Estados modernos europeus, enquanto formações sociais diferentes(...)que disputam entre si os lucros(...) resultantes da exploração do comércio colonial” (pg. 17)O período anterior à Revolução Industrial é dito “pré-capitalista”
2ª-Perspectiva que vê o “mercado mundial”,uma totalidade que “integra e hierarquiza regiões e modos de produção”. “Há apenas uma transição, precisamente aquela que deu origem ao sistema (século XVI); a acumulação é um processo único(...)” (pg.17)
b) Os espaços e tempos
“Antigo regime econômico”- Predominância da agricultura / precariedade dos transportes / Indústria de bens de consumo
“Novo regime econômico”- Predomínio da produção industrial / maior rapidez e capacidade de transportar cargas maiores / crises de superprodução e flutuação de preços.
c) Historiografia da Expansão
Enfoque econômico e social: dá ênfase à tipologia da colonização e no caráter dependente das áreas coloniais
Enfoque na política da expansão: volta-se para as formas de resistência e práticas de cooptação ou interpenetração social.
Enfoque cultural: centrado nos “encontros, e desencontros de culturas e civilizações”

Parte I-A era do Capital(ismo) comercial.
a) Pressupostos políticos, sociais e culturais da expansão pré-capitalista
1.O quadro político: Estado Absolutista e desenvolvimento mercantil e manufatureiro
2.As estruturas sociais: Ordem estamental, crescimento da burguesia e seus negócios
3.Os dados culturais:crise da autoridade “antiga”, viagens transoceânicas, empirismo e avanços científicos, imprensa e difusão do saber.
b) A expansão mercantil
1. Antecedentes medievais
“Revolução econômica” dos séculos XI e XII; expansão marítima e comercial dos séculos XV e XVI
2.Circuitos comerciais: mercados intra-europeus e extra europeus
Circuito intra-europeu: mercados do Mediterrâneo, Atlântico, Báltico e Europa centro-oriental
Circuitos extra-europeus: Américas, “Índias” e China.

Parte II-A era do Capitalismo Industrial
-Introdução
Tradicionalmente divide-se a história do Capitalismo oitocentista em duas fases: do final do século XVIII até 1870-“Era do Capitalismo Industrial”- e de 1870 a 1914-“Era do Capitalismo monopolista e imperialista.
a)Pressupostos políticos e culturais da expansão
Industrialização e Estados-nações
Industrialização e constituição do proletariado levam ao surgimento de movimentos sociais, libertários ou nacionalistas. A burguesia industrial abandona o ideal de “revolução” à medida que esse passa a ameaçar a ordem / hegemonia burguesa.
O Nacionalismo exarceba a xenofobia o que, aliado ao cientificismo, leva ao desenvolvimento do Darwinismo social e geopolíticas racistas.
b)A expansão capitalista oitocentista
1.Características gerais:
Burguesia “conquistadora”
Aceleração da expansão pode ser creditada a dois fatores: a “grande depressão” (1873-96) e a emergência de novas potências-E.U.A, Alemanha, Japão etc...-
Elementos da expansão
Exploradores-aventureiros e cientistas, mapeamento de territórios
Missionários-ideal de evangelização
Militares-”heróis coloniais” que levariam a “civilização” aos “selvagens”
Empresários-exploradores de recursos e mercados
Lógica da expansão-”A expansão colonial oitocentista(...) apresenta-se assim como uma curiosa mistura de aventura, espírito científico, fé missionária, conquista militar e ambição e sede de lucro”. A expansão também é vista como “intrinsecamente benéfica” para os povos colonizados, aos quais levaria o “progresso e a civilização”
“Cenários” geopolíticos da expansão colonial:
- Império Otomano
-África sul-saariana
-Regiões Asiáticas

domingo, 23 de março de 2008

BERMAN, Marshall. (Fichamento)

BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo, Companhia das Letras, 2007. Introdução: “Modernidade – ontem, hoje, amanhã” pp. 24-49.

Sobre a modernidade e o “ser moderno”
Berman define a modernidade como um conjunto de experiências. “Ser moderno” é compartilhar dessas experiências, é encontrar-se num ambiente que promove “autotransformação e transformação das coisas em redor-mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos.” (pg. 24) Ou seja a modernidade é um processo de constante mudança e destruição/reconstrução/destruição do nosso universo social.
Fases da modernidade
O autor divide a modernidade em três fases:
· 1ª fase-Início do século XVI ao fim do século XVIII
· 2ª fase-“Onda revolucionária” de 1790 até o Século XIX
· 3ª fase-Século XX
Início da Modernidade
Rousseau, com o romance “A nova Heloísa” exemplifica o clima da primeira fase da modernidade. Uma “atmosfera de agitação e turbulência(...)expansão das possibilidades de experiência e destruição das barreiras morais e dos compromissos sociais” (pg. 27) Seria o princípio do “turbilhão de desintegração e mudança”
Modernidade no século XIX
No século XIX, com o advento das revoluções ditas burguesas e o desenvolvimento tecnológico resultante da Revolução Industrial, com todas suas conseqüências sócio-econômicas, a modernidade passa por novas transformações:
Marx- “Todas as nossas invenções e progressos parecem dotar de vida intelectual as forças materiais” (pg. 29) (...) “Todas as relações (...) com seu travo de Antigüidade e veneráveis preconceitos e opiniões foram banidas: todas as novas relações se tornam antiquadas antes mesmo que cheguem a se ossificar” (pg 31)
Nietzsche: “(...) A moderna humanidade se vê em meio a uma enorme ausências e vazio de valores, mas ao mesmo tempo em meio a uma desconcertante abundância de possibilidades” (pg. 32)
Ambos, Marx e Nietzsche, vêem no surgimento de um novo tipo de homem a possibilidade para a formação de novos valores que permitam à humanidade lidar com o desenvolvimento técnico, social, e econômico e desafios trazidos pela modernidade.
Modernidade no século XX
O autor compara as visões sobre a modernidade encontradas nos pensadores do século XIX e nos pensadores do século XX. Para Berman, durante o século XIX a modernidade era vista de forma mais complexa, com tentativas de conciliar suas ambigüidades e contradições, com críticas e a busca de soluções e adaptações. Já no século XX o autor vê uma crescente tendência à simplificações e totalizações.
“Aí não há ambigüidades: ‘tradição’- todas as tradições da humanidade atiradas no mesmo saco - se iguala simplesmente a uma dócil escravidão e modernidade se iguala a liberdade(...)” (pg. 36)
O autor também discute a idealização da modernidade e do progresso tecnológico, usando o movimento futurista como exemplo. Berman também acena para a tendência dessa idealização tornar-se tão completa a ponto de desvalorizar, ou eliminar, da noção de modernidade, o elemento humano.
“Muitos pensadores do século XX passaram a ver as coisas deste modo: as massas pululantes, que nos pressionam no dia-a-dia e na vida do Estado, não têm sensibilidade, espiritualidade ou dignidade como as nossas; não é absurdo, pois, que esses ‘homens-massa’ (ou ‘homens ocos’) não tenham apenas o direito de governar-se a si mesmos, mas também, através de sua massa majoritária, o poder de nos governar?” (pg. 40)
O autor chama essa postura, que postula a incapacidade das massas de se auto-gerir e defende o “estado de administração total”,de a “‘perspectiva neo-olímpica’ de Weber ampliada e distorcida”, referindo-se à afirmação de Max Weber de que o “todo poderoso cosmo da moderna ordem econômica(...) determina a vida dos indivíduos que nasceram dentro desse mecanismo(...) com uma força irresistível". (pg. 39) Nessa perspectiva pode-se ver a raiz dos movimentos totalitários do século XX.
Atitudes do Modernismo a partir dos anos 60
“Ausente”
O artista/pensador volta as costas para a sociedade e se volta para o “mundo dos objetos” contemplando idéias “puras”.
“Negativa”
Modernismo visto como uma “tradição de destruir a tradição”, torna-se uma “cultura de negação”.
“Positiva”
Busca a eliminação das fronteiras que dividem as diferentes atividades humanas, e tenta abarcar a “riqueza de coisas materiais e ideais” que o mundo oferece.
De acordo com o autor: “Todas essas visões e revisões da modernidade constituíram orientações ativas em relação à história, tentativas de conectar o conturbado presente com o passado e o futuro(...)” (pg.45)
O paradoxo da Modernidade
É central no texto de Berman a questão de como a modernidade, enquanto “turbilhão” de mudanças, idéias, inovações, enquanto crítica de si mesma (já que aqueles que a vivem buscam seus vários sentidos e formas de se adaptar a ela), parece não apenas incapaz de se definir, como de se estabilizar ou renovar, sendo, paradoxalmente, uma permanente efemeridade. Cita Octavio Paz, poeta mexicano que lamenta que a modernidade “(...) cortada do passado e tenha de ir continuamente saltando para a frente, num ritmo vertiginoso que não lhe permite deitar raízes, que a obriga a sobreviver de um dia para o outro: a modernidade se tornou incapaz de retornar a suas origens para, então, recuperar seus poderes de renovação” (pg. 47)
Berman conclui: “Pode acontecer então que voltar atrás seja uma maneira de seguir adiante(...) Esse ato de lembrar pode ajudar-nos a levar o modernismo de volta às suas raízes, para que ele possa nutrir-se e renovar-se, tornando-se apto a enfrentar as aventuras e perigos que estão por vir. Apropriar-se das modernidades de ontem pode ser, ao mesmo tempo, uma crítica às modernidades de hoje e um ato de fé nas modernidades-e nos homens e mulheres modernos - de amanhã e do dia depois de amanhã” (pg. 49)